domingo, 31 de janeiro de 2010

O HOMEM, O UNIVERSO E O ESPÍRITO.

“Algo de paradoxal ocorre quando nos deparamos com a nossa ‘pequenez’ perante a Natureza. Por um lado, nos vemos como seres especiais, superiores, capazes de construir tantas coisas, de criar o belo, de transformar o mundo através da manipulação de matéria prima, da pedra bruta ao diamante, da terra inerte ao monumento cheio de significado, dos elementos químicos aos plásticos, aviões, bolas e pontes.”

“Ao olhar para o Universo, o homem é nada. Ao olhar para o Universo, o homem é tudo. Esse é paradoxo da nossa existência, sermos criaturas espirituais num mundo que não se presta a questionamentos profundos, um mundo que segue, resoluto, o seu curso, que procuramos entender com nossa ciência e, de forma distinta, com nossa arte.” MARCELO GLEISER, Folha de São Paulo, 31/01/2010, Mais, fl. 9.

Toda vez que as tragédias naturais chocam-nos, vêm-nos as idéias apocalípticas de que estamos próximos do fim. Começamos a indagar do fim do mundo e dos tempos e voltamo-nos para o desconhecido em busca do consolo, de uma visão de salvação, de um lugar ou meio de continuarmos a existir, em corpo ou espírito.

Chegamos a acreditar (alguns apenas) que o AGORA é uma continuação do ontem e o futueo, ao menos no plano individual, no plano do Espírito.

O Espírito seria o sistema operacional instalado em nosso cérebro – HD (hard disk) e seria ainda o sistema de gestão de nossas vidas (ERP -Enterprise Resource Planning); seria a causa da inteligência. Acontece que o Espírito não é instalado exatamente como fora no passado, não é mero backup, pois esquecemo-nos das bondades e maldades pretéritas. Para alguns, o Espírito seria “auto instalável”, como um vírus, que ele elege o que instalar, por exemplo, não instala a memória do mal passado. Outros acreditam ainda que a instalação do Espírito dá-se por vontade alheia ao sistema operacional e esse instalador é que elege o que instalar. Quando transplantarmos cérebros não sei como faremos a upgrade o Espírito!!

Numa visão puramente natural, portanto humana, as “tragédias naturais” - isso porque existem as tragédias provocada pelas mãos humanas - são tão naturais no contexto do planeta e do universo que sequer poderiam ser tidas como tragédias. São tão naturais como o nascer e morrer das estrelas; como o nascer e morrer do dia.

O fato é que o Universo continua indiferente aos homens e continua a expandir-se e mover-se com alguns corpos morrendo dentro de si e outros surgindo; os choques são constantes e deles resulta a energia, fonte de tudo, inclusive da vida humana.

Claro que as tragédias naturais chocam os homens e não deveria ser diferente. Um dos dois sentidos da vida é a sobrevivência da espécie – o primeiro é a procriação. Quando vemos semelhantes sucumbirem diante das tragédias naturais, pensamos em nós mesmos e no nosso fim, principalmente se a nossa sorte for a mesma.

O que é o espírito? É algo que pré-existe ao homem? Sobrevive depois deste? Ou é apenas a capacidade de pensar (não digo inteligência simplesmente porque esta existe em todas as formas de vida) que nos distingue dos demais seres?

Se olharmos o homem como mais uma espécie na natureza (ao lado de borboletas e leões) – e neste canto do Universo – logo chegaremos a conclusão de que tudo finda como começa: do nada, no nada. Na verdade NADA, aqui empregado, é no sentido do natural para afastar, neste contexto, a influência benigna ou maligna de seres não humanos, ou seja, o NADA seria a complexa obra da natureza construída em bilhões de anos, construção esta desde o momento zero, na singularidade e que, a olho nu ou microscópico chamam-se: óvulo e esperma. Neles todo código da vida acha-se presente, inscrito e é inconcebível que acordos feitos no além possam alterar-lhes as características, como nascer sem perna ou ter olhos azuis. Está aí a engenharia genética a desafiar Deus (João 9.2-3).

Ora, se não houver uma eternidade ou a possibilidade de retorno, as vítimas das tragédias naturais seriam injustiçadas pela divindade? Parece-me que não, seja porque a divindade não seria injusta de impor a tragédia seja porque para a divindade não existe a tragédia. Tendo que se deslocar as placas tectônicas, os terremotos, indiferentes aos sentimentos humanos, acontecerão necessariamente e não se preocupará a natureza em avisar-nos antecipadamente – é até possível que nos avise, contudo, ainda não lhes entendemos os sinais, se existirem.

O espírito humano finda com vida humana. Não precisamos de uma continuação para que nossas vidas tenham sentido. Não é a esperança ou o medo (céu ou inferno ou o retorno) que imprimem valores aos valores morais, ou seja, a moral não vem de algo sobrenatural, é tão natural como ver a luz ou ouvir o som. A moral tem seus valores forjados justamente na preservação da espécie humana (segundo mandamento). Mas adiante, estes valores evoluem e acham a proteção do Direito – perspectiva histórica. O sucesso ou fracasso de nossas vidas têm haver com nossas opções sendo igualmente verdade que o Estado pode ajudar ou atrapalhar.

Os valores culturais, nosso conceitos de bem e mal, tudo é criação humana e variam conforme a cultura das gentes. O pecado do ocidente pode não ser no oriente e vice-versa.

Também humana é a divindade, já que a criamos; humana igualmente é a visão do universo; humana é reprodução e preservação da espécie. Tudo é natural, tudo é humano aos olhos da consciência humana. Tudo, neste contexto natural é humano quanto os signos lingüísticos ora empregados por humano dirigido aos humanos, já que não ousaria falar aos deuses.

Nosso paradoxo?

“..sermos criaturas espirituais num mundo que não se presta a questionamentos profundos, um mundo que segue, resoluto, o seu curso, que procuramos entender com nossa ciência e, de forma distinta, com nossa arte.”

Jeazi Lopes de Oliveira

Janeiro, 2010.

2 comentários:

  1. Filósofo, eu diria que esas masis para pensador, Jeazi Lopes de Oliveira,
    Primeiramente parabéns pelo BLOG.
    Será uma forma de vc.exprimir seus sentimentos,dúvidas, e até as frustrações, porque não?
    Cada um de nós é um ser que deseja conhecer sua origem, seu caminho e seu final.
    Os filosofos do passado viveram o longo de seus dias pensando o mesmo que nos, uns mais otimistas outros mais pessimistas.
    Não há forma de chegar-se a um consenso, inclusive sobre a propria existencia de um ser criador.
    A única forma é tergiversar sobre o que pode ter ocorrido num passado, talvez muito distante, isso sim é fato positivo, porque temos os relatos, seja em manuscritos, em desenhos rupestres, que nos foram legados por alguns daqueles escribas mais evoluidos.
    Eu perguntaria a vc. existe um Ser supremo criador de todas as coisas, ou a teoria dos darwinianos tem alguma lógica?
    Algo digno de questionamento!!!
    DL

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  2. David, existe um Ser Supremo e ele reside exatamente onde a compreensão humana não por ir. Quando não achamos o ponto de partida, aí é Deus ou aí Ele está. No mais, se temos um criador, certamente não temos um Governo dos mundos!!!

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